Depois da Justiça intervir no processo de concessão da BR-364, o prefeito de Cacoal (RO), Adailton Fúria (PSD), decidiu avançar um pouco mais no debate público sobre os pedágios em Rondônia. Se no primeiro vídeo divulgado nas redes sociais o gestor limitou-se a explicar o cenário, agora resolveu migrar para o campo das chamadas “soluções” — ainda que tardias — para um problema que há anos penaliza motoristas e caminhoneiros no estado.
Desta vez, a proposta ganhou contornos políticos mais claros e partiu da primeira-dama do município, Joliane Fúria, ex-candidata a deputada federal em 2022. A ideia, segundo ela, seria usar o peso da bancada federal de Rondônia em Brasília (DF) para criar uma lei específica que proíba a cobrança de pedágio em rodovias federais que não sejam, no mínimo, duplicadas e que não ofereçam melhorias reais aos usuários.
No vídeo, endossado pelo prefeito, Joliane classifica a situação como absurda e resume o sentimento de grande parte da população rondoniense.
“Tem que criar uma lei que só pode cobrar pedágio as rodovias que forem, no mínimo, duplicadas. Agora aqui em Rondônia, a gente tem os pedágios mais caros do Brasil, uma via que não diminuiu o índice de acidente e cobra pedágio, isso tá errado!”, afirmou.
E, do ponto de vista do usuário da rodovia, a fala é difícil de contestar. Rondônia convive com tarifas elevadas, pistas simples, histórico de acidentes graves e promessas de duplicação que seguem mais no papel do que no asfalto.
O problema, porém, está longe de ser resolvido com a simplicidade sugerida no discurso. Concessões rodoviárias não funcionam como conversa de bastidor. Há contratos já assinados, marcos regulatórios federais, compromissos com investidores e decisões judiciais que não se anulam com um “projeto de lei rapidão”, tampouco com boa vontade tardia de parte da classe política.
A aposta de que bastaria a bancada federal “acordar do coma induzido”, apresentar um projeto, aprová-lo rapidamente e, pronto, acabar com o pedágio em rodovias não duplicadas soa elegante no discurso, mas desconectada da realidade jurídica, econômica e política que rege as concessões federais.
Ainda assim, o episódio revela uma tentativa — mesmo que simbólica — de lideranças locais em demonstrar reação diante da insatisfação popular crescente. O problema é que, neste jogo, as decisões já foram tomadas longe de Rondônia, e o campo de atuação dos políticos locais parece cada vez mais restrito.
Enquanto isso, o usuário da BR-364 segue pagando caro, trafegando em pista simples e ouvindo promessas que, mais uma vez, chegam depois que o contrato já está assinado.
Fonte: RO Acontece/ O minuto Notícias
