Ministro Buzzi
O afastamento do ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), não ocorreu por acaso — nem apenas por cautela institucional. O que pesou decisivamente foi o surgimento de uma nova acusação de assédio sexual, considerada grave o suficiente para levar os colegas de toga a agir de forma rápida e unânime, numa tentativa clara de conter danos à imagem do tribunal.
Segundo relatos de integrantes do próprio STJ, a nova denúncia apresenta semelhanças inquietantes com a acusação feita anteriormente por uma jovem de 18 anos, que afirma ter sido assediada pelo ministro dentro do mar, em Santa Catarina. O novo depoimento, prestado por outra mulher à Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) nesta segunda-feira (9), teria sido confirmado por testemunhas, o que elevou o nível de preocupação interna.
A identidade da denunciante e os detalhes do relato seguem sob sigilo, mas, nos bastidores, o clima é de alerta máximo. O entendimento entre ministros foi de que o tribunal não poderia bancar a inércia, sob risco de ser acusado de corporativismo e omissão diante de denúncias de natureza extremamente sensível.
Apesar do afastamento, o caso expõe uma contradição difícil de justificar à sociedade: Marco Buzzi segue recebendo integralmente o salário de cerca de R$ 44 mil, mesmo estando proibido de exercer qualquer função no cargo. O STJ classificou a medida como “cautelar, temporária e excepcional”, mas, na prática, o afastamento não gera qualquer impacto financeiro ao magistrado.
O ministro é alvo de investigações simultâneas: administrativas no CNJ e no próprio STJ, e criminais no Supremo Tribunal Federal (STF), onde tramita um inquérito em razão da prerrogativa de foro. Em todas as frentes, Buzzi nega as acusações.
Nos corredores do tribunal, a avaliação é de que o afastamento foi também uma forma de blindar institucionalmente o STJ, evitando que a crise ganhasse contornos ainda maiores. Ministros já vinham defendendo a saída temporária de Buzzi desde a semana passada, especialmente após alertas de que novas denúncias poderiam surgir.
A preocupação não era apenas com a conduta individual do magistrado, mas com o risco de o tribunal ser tragado por uma crise de credibilidade em um momento em que o Judiciário já enfrenta forte desgaste perante a opinião pública.
Em meio ao avanço das apurações, Marco Buzzi apresentou nesta terça-feira (10) um atestado médico assinado por uma psiquiatra, solicitando licença de 90 dias. Ele também enviou uma carta aos colegas do STJ, na qual nega veementemente as acusações e afirma que o caso tem causado sofrimento à sua família.
“Creio que nos procedimentos já instaurados demonstrarei minha inocência”, escreveu o ministro.
A acusação envolvendo a jovem de 18 anos ganha ainda mais repercussão pelo vínculo pessoal: ela é filha de amigos do magistrado, que tem 68 anos.
O que vem pela frente
Durante o afastamento preliminar, Buzzi está impedido de acessar o STJ e de utilizar veículo oficial. O tribunal ainda decidirá se abre ou não um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), etapa que pode resultar em sanções mais severas.
Antes disso, o ministro ainda pode optar pela aposentadoria, o que encerraria sua passagem pelo tribunal sem uma conclusão administrativa definitiva. Caso o processo disciplinar seja instaurado, essa alternativa deixa de existir.
O caso reacende um debate incômodo, mas necessário: até que ponto o Judiciário está disposto a ir quando um de seus próprios membros é acusado de crimes graves? E, mais ainda, se a resposta rápida basta — ou se, mais uma vez, a instituição age para se proteger enquanto a sociedade cobra consequências reais.
Fonte: RO Acontece
